quarta-feira, 27 de maio de 2009

Geração sustentável

Consuelo Yoshida é desembargadora e professora, atua no Tribunal Federal da 3ª Região, em São Paulo. Ela é grande divulgadora dos preceitos da Responsabilidade Socioambiental, por meio de palestras que oferece a empresas públicas e privadas. Foi em uma dessas ministrações, na semana passada, que tive a oportunidade de conversar com ela.

A palestra ofereceu a funcionários de um órgão público e abordou essa questão de maneira profunda, traçando um panorama do processo de poluição desde a Revolução Industrial, no século XVII, até os dias de hoje. Munida de fotos que apresentavam os atuais contextos de degradação de florestas, disparidades sociais e poluição, a desembargadora explicou aos presentes a importância da economia de energia ou de materiais para a preservação do meio ambiente.

A desembargadora comentou sobre a mobilidade da atual geração na preocupação da preservação do meio-ambiente e que essa postura já é natural e inclusive instalada na educação escolar de hoje em dia. Atitudes como a captação d’água da chuva para utilização, reciclagem de lixo e coleta seletiva ajudam na preservação do meio-ambiente, embora segundo reportagem do Fantástico do dia 17/05, ações como essas ainda são escassas no país.

“Isso acontece porque a pessoa já não fica mais cômoda de só ela usufruir dos serviços da cidade, ou seja, ela também se preocupa em como um deficiente vai entrar no ônibus ou transitar nos elevadores. Isso já é uma realidade mais próxima da nova geração. Sempre haverá essa fase de transição, a qual eu não vejo com pessimismo. Deve existir essa mentalidade, pois o planeta fica e nós é que vamos”, afirmou Yoshida.

Um importante ponto destacado pela desembargadora é a ganância que ainda existe em querer lucrar com negócios ilegais, como a venda de animais exóticos e em extinção e a extração de madeira não certificada. Com isso, faz-se necessária que os consumidores, que somos nós adotem medidas de fiscalização para deter o comércio ilegítimo. “Toda atividade humana degrada o ambiente. Portanto, precisa exister uma compensação, ou seja, aquilo que é inevitável, você deve compensar, como plantar árvores para neutralizar as emissões de gás carbônico. Embora, matematicamente falando, teria de ser muitas árvores para equilibrar as emissões de CO2 das atividades humanas. Porém, as pessoas estão mais conscientes. Só o fato de deixar o carro em casa e ir para os lugares de bicicleta, já é uma demonstração de conscientização”, explica a entrevistada.

O chamado “Marketing de Causa”, que é a adoção dos valores de salvaguarda da natureza por uma empresa, seja ela pública ou privada, é fundamental para a adaptação, educação e conscientização da população. Ainda que haja benefícios tributários envolvidos. Entretanto, o preço de produtos de certificação legal ainda são altos e, portanto, restritos a uma grande parcela da população. Segundo Yoshida, se os consumidores passarem a comprar e exigir legalidade dos produtos que consomem, mais empresas irão adotar os ideais da responsabilidade socioambiental e assim, diminuir os custos e o mercado ilegal.

“A responsabilidade socioambiental tem o limite obrigatório que está nas leis e aquele “plus” que as pessoas fazem voluntariamente. Quando mostramos as normas da ISO 14.000, 9.000 ou 26.000, surgem posturas voluntárias do empresariado que quer ter um mercado melhor estabelecido dentro da competitividade. Se ela é uma empresa preocupada com o aspecto social, gestão ambiental e sustentabilidade, competitivamente, nesse mundo atual, ela tem mais mercado. Então, é nessa linha que devemos ir. Por isso, temos aquilo que é obrigatório por estar na lei, além dessas outras normas que são padronizadas para todos, mas que não são obrigatórias”, diz Yoshida.

A questão de trabalhos de caráter exploratório e degradante, como a função dos boias frias também foi invocada pela desembargadora. A mecanização da queima da palha de cana, que na maior parte do Brasil ainda é executada por estes trabalhadores, é uma solução para acabar com os problemas causados pelas queimadas ao meio-ambiente e com a miséria dessas pessoas e de cidades que dependem das indústrias sucroalcooleiras.

“Cada geração de pais trabalha para que seus filhos tenham uma vida mais confortável que a deles no futuro. Não é porque uma pessoa nasceu boia fria que os filhos dela também têm de ser. O mundo globalizado precisa de pessoas que dominem tecnologia de ponta. Não existe outra saída, têm de se capacitar e para isso existem as políticas sociais. Portanto, a responsabilidade socioambiental, na qual a contribuição é feita por todos e baseado no princípio da solidariedade, funciona muito bem. As empresas devem contribuir com esse incentivo, porque isso reverte na capacitação e profissionalização desses trabalhadores, o que significa vantagem para as empresas”, conclui a desembargadora.

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